segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Da série: DA COR DO FUTEBOL: Tomo 1


Foi emblemático o desdobramento do que ficou conhecido como o ‘Caso Grafite’ quando o zagueiro argentino Desábato recebeu voz de prisão ao sair de campo, em pleno Morumbi, acusado pelo crime de racismo, assim que o juiz apitou o fim da partida entre São Paulo e Quilmes, pela Copa Libertadores da América, em 2005.

Segundo o atacante brasileiro, num lance de jogo, o argentino o teria ofendido, xingando-o de ‘negro de merda’.

Emblemático porque trouxe à tona a questão do preconceito de cor nas relações futebolísticas no Brasil.

Mais emblemático ainda foi o apontamento de Luis Felipe Scollari, sobre o caso. À época treinador da Seleção de Portugal e em visita ao Brasil, Felipão disse que a prisão de Desábato  fora um exagero, que dentro do gramado há coisas piores e que são meras provocações sempre na tentativa de se desestabilizar o adversário.

Segundo Ronaldo Helal, pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), num estudo sobre a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina, após uma estadia em Buenos Aires pesquisando, concluiu que a animosidade é mais forte do lado tupiniquim. Os hermanos, ao contrário, admiram mais do que odeiam o futebol brasileiro. Sobretudo a 'alegria de jogar' dos brazucas, imortalizada pela imagem mítica de Garrincha e Pelé e retroprojetada em jogadores como Cafu, Ronaldinho Gaúcho, Robinho (e porque não Neymar, à época da pesquisa um desconhecido).

Meses depois do jogo entre São Paulo e Quilmes, as seleções de Brasil e Argentina protagonizaram a final da Copa das Confederações na Alemanha, com uma sonora goleada do escrete canarinho. 4x1 em cima da Argentina de Aymar, Riquelme, Sorín e Tevez. Em matéria do jornal Olé, o articulista Marcelo Sotille sentenciou, lançando luz sobre o quesito 'alegria' dos brasileiros como um diferencial dentro de campo:

“(…)Bailando con sus mejores sonrisas, cantando ante ojos extraños como un grupo que se divierte sin que los rivales le sa­quen la pelota. Porque son así, son profesionales del juego bonito, Y en la cancha suelen mostrar los dientes... (Olé, 30 de junho de 2005)”.

Voltando ao 'Caso Grafite' Helal compartilha a repercussão na imprensa esportiva da Argentina sobre a prisão do zagueiro do Quilmes, destacando os populares Olé e Clarín:

"As matérias sobre o “caso de racismo” do jogador Desábato chegaram às primeiras páginas dos jornais argentinos e o tom era de indignação pelo exagero da punição. Havia fotos do jogador alge­mado e manchetes sob o título “Vergonha” (Clarín, 15 de março) e “Inferno no Brasil” (Olé, 15 de março)".

Helal percebeu que o uso frequente do termo ‘macaquito’ empregado pela imprensa e atletas portenhos, embora cristalize estereótipos e traga uma aditivo de preconceito, tem uma conotação puramente provocativa, ciosos de que isso incomoda os brasileños. O macaquito seria o equivalente do maricón, contrapartida usada pelos jogadores brasileiros para irritar os argentinos. Assim como um brasileiro ao provocar o adversário chamando o de maricón, alusão a vaidade dos argentinos com suas cabeleiras vastas atadas a rabos-de-cavalo ou arcos, ou tiaras, não acredita que de fato, o oponente é gay, e só o faz por provocação, o mesmo se dá com as mofas dos argentinos.

Voltando à fala de Felipão sobre ‘Caso Grafite’, o treinador coloca à plateia de jornalistas a pergunta ‘querem debater racismo no futebol? Quantos craques e bons jogadores negros já tivemos no Brasil? Muitos ou poucos?’

 Felipão mesmo responde e encaixa outra pergunta (inquietante e incômoda pergunta) ‘tivemos muitos e agora respondam, quantos técnicos negros estão à frente de algum grande time brasileiro?


REFERÊNCIAS:

HELAL, Ronaldo, Como eles nos vêem - futebol brasileiro e imprensa argentina, Revista Contemporânea, UERJ,2005,disponível: http://www.contemporanea.uerj.br/pdf/ed_04/contemporanea_n04_07_RonaldoHelal.pdf



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

ARTE POÉTICA: Mostra sua ginga, Tinga

Tinga
Mostra sua ginga
Pois o ódio só respinga
Em quem tem ódio também

Tinga
Seu talento é o que te vinga
Pois aquele que te xinga
Merece só o seu desdém

Autoria: Ricardo Bispo





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fernando Queiroz é filho de um dos homens mais ricos e influentes de São Vicente. Um jovem que sempre se incomodou com o fato de ter do bom e do melhor, enquanto muitos mal tem o que comer. Num belo dia resolve largar as mordomias da mansão de sua família e decide ir catar papelão com um carroceiro do México-70.  




   Um verdadeiro espetáculo bordava de cores o céu azul da favela. Pipas com suas extensas rabiolas. Adernavam... Adornavam... Bailavam na imensidão tendo como fundo-de-cena tiras de nuvens-algodão semelhantes à clara de ovo batida em ponto de neve e respingada pela gema dourada do sol.
FOTO: Bernado Tabak/ G1

    Jardas e jardas de linha-10 desenrolavam-se dos carretéis estendendo ao longe pipas, cartolinhas e papagaios num sonho de liberdade. A cada debicada elas curvavam-se no ar, altaneiras, balançando a cauda como cometas de papel crepom. De repente duas delas se estranharam no alto. Enlaçaram-se. Enroscaram-se. Duelaram-se. Duas capoeiristas ao som dos ventos berimbaus. A linha de uma delas, mais afiada, de súbito, retesou-se. Revestida por uma camada de pó de vidro e goma rompeu o elo vital da pipa rival que flutuou, sem vida e sem encanto, igual a uma folha que o outono poda dos arvoredos.


   Empunhando enormes varas de bambu, a meninada em disparada afluía da Rua Dois, da Rua Seis, da Rua Cinco, do Trevo, da Rua do Meio, como caçadores de balão, convergiam ao Campão. Pés no chão de barro, olhos no céu de pipas.

   - Tá acordado, moço? – estranhou Beto, ao encontrar Nando desperto. Beto demonstrava sobriedade num indício de que o álcool e seus teores vaporizaram-se em meio ao reboliço efervescente da paixão.


O texto acima é um trecho do romance Nando pelas ruas do México-70, de autoria do colunista dessa página e de seu pai Antônio Bispo. A previsão de publicação é do 2º semestre de 2014.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A ARTE POÉTICA: Coração hipotalâmico


Coração cruel e insensível
sede de inomináveis amarguras,
espúrias tristezas,
vãs esperanças e alegrias fortuitas
Te absolvo
Laudo assinado pelos bioquímicos
e neurocientistas
As emoções não emanam
tampouco se convergem
ao polo esquerdo do peito
O epicentro desse furacão
que a tudo devasta e desbasta
tudo que prezo, pelo que rezo e amo
Chama-se hipotálamo


Ai hipotálamo cruel e insensível


                                                                                   Autoria: Ricardo Bispo

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ESSA NOITE VAI TER LUA CHEIA

Hoje dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá e me deparei com a foto que posto abaixo de uma campanha publicitária pouco feliz da Dulorem.



Rainha do mar, guardiã da água salgada. Deusa do panteão iorubá. Na mitologia nagô, Filha de Olocum, o Senhor dos Mares, é a grande matriarca do Orum, morada celestial dos Orixás, entes da natureza, cultuados na África Ocidental, onde hoje são a Nigéria e o Benim, além de países com forte influência da Diáspora Negra como Brasil, Cuba onde é chamada de Yemayá, em Trindad-Tobago é Emanjah, na República Dominicana, Agué Toroyo e no Haiti, Maitresse Erzili e Agoué. Vinculada à maternidade Iemanjá zela também pelas faculdades mentais superiores, como a memória, o intelecto e a cognição. O culto a Iemanjá se originou entre o povo Egbá, no centro-oeste do país ioruba, segundo o pesquisador Nei Lopes. 

Um dos orixás mais populares do Brasil (sempre lembrada nas festividades de virada de ano) eternizada em canções, filmes e novelas, é também símbolo do desrespeito e menosprezo com que a cultura negra é tratada no Brasil.



Alvo de um processo de embraquecimento, qual Jesus Cristo concebido um louro, de olhos verdes, a deusa africana é apresentada comumente como uma sereia de traços eurodescendentes, com cabelos lisos, levemente ondulados, pele alva e feições caucasianas. Há quem afirme se não fosse esse embraquecimento a popularidade e aceitação de Iemanjá na sociedade brasileira não seria tão ampla.


A campanha de lingerie da Dulorem apresenta uma Iemanjá branca dessacralizada com um ar sedutor. Seria alusão ao poder de encantamento e irresistível sedução da sereia, entidade folclórica associada à Iemanjá, o que não serve como desculpa para tamanho desrespeito.

Na mesma toada lembro do axé pop de Pepeu Gomes, recentemente regravada e que foi tema de abertura de novela da Rede Globo.

‘Sexy Iemanjá
Tudo haver com o mar
Essa noite vai ter lua cheia’


A Rainha do Mar, Grande Mãe, ocupa o mais alto patamar na hierarquia das deidades iroubanas, acima de outras iabás (orixás femininos) como Oxum, Iansã e Nanã. Iemanjá está para os candomblecistas e umbandistas o que Nossa Senhora está para os católicos. 

Imaginem o bafafá,o deus nos acuda se invés de Iemanjá, expusessem uma santa do catolicismo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

“ESSE tal de hip-hop”


Eu canto é samba-de-breque
Não sou Black, não sou dos States
Vai pra lá com esse seu funk
Essa moda de rap, essa dança de breake
Quero ouvir versador, não quero curtir MC
Por que o meu sangue é nagô
Sou banto, sou luso, eu sou guarani

É que esse tal de hip-hop
É tecnopop e esse é seu pretexto
Você acha que ganha Ibope
Com linguagem cultural de outro contexto
Eu sou mais uma roda de coco
Um calangotango, uma embolada
Sob a luz do repente uma chula raiada
Faz da umbigada a maior curtição

Desfaz esse ar de sisudo
Semblante carrancudo pra impor respeito
Tire uma onda no samba
Protesta na manha que surte efeito

(Eu canto é samba-de-breque...)

Isso não é preconceito
Eu tenho um conceito e que me advogue
Se os manos do Bronx não cantam Cartola
Porque cantarei então o Snoop Dogg
Eu sou mais uma roda de coco
Um calangotango, uma embolada
Sob a luz do repente uma chula raiada
Faz da umbigada a maior curtição

Desfaz esse ar de sisudo
Semblante carrancudo pra impor respeito
Tire uma onda no samba
Protesta na manha que surte efeito

Na Feirinha da Pavuna houve uma grande confusão!

Quando chega essa época e vejo a Pavuna, no subúrbio do Rio, às voltas com as enchentes, lembro-me que em tupi-guarani pavuna significa 'lugar atoladiço'.

 Os tupinambás há 500 anos já sabiam o que os governantes ainda não sacaram.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

É de escalpelar Valderrama

No Tempo de Dom Dom samba enredo era feito por dupla ou no máximo por um trio de compositores.

Hoje em dia parece um time de futebol

Ô Lôko!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Bóris Casoy de saias

Colegas no SBT têm vergonha da jornalista Rachel Sheherazade

http://r7.com/cNEt 



(Foto: Reprodução/SBT)

A grande questão não é ser de direita ou de esquerda, tampouco o fato de estarmos num país democrático, onde todos tem assegurado o direito de expressar o seu pensamento. 

O problema é quando uma jornalista (que tem como função informar, noticiar), por meio de uma concessão do Estado, que é o canal de tv,  utilizando assim a faixa do espectro eletromagnético - usado na radiofusão, que é um bem público, para impor a sua opinião pessoal, interferindo na essência da notícia, direcionando conclusões dos telespectadores, negando a estes o direito de discordar e contra-argumentar. 

Digo impor e não expor sua opinião, porque o posto que a telejornalista ocupa na ancoragem de um noticiário, com toda a credibilidade  que lhe é inerente, em horário nobre e em rede nacional a coloca numa posição privilegiada e desigual como formadora de opinião. É uma imposição!

Segundo o professor Laurindo Lalo Leal Filho, livre-docente da Escola de Comunicações e Arte da USP, no livro Mocinhos e Bandidos -controle do conteúdo televisivo e outros temas, nos países com democracia consolidada, jornalistas de rádio e TV não opinam e mantém a neutralidade da informação.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

“É SÓ BBB”





BBB 19.jpgÉ SÓ BBB (Quando ligo a tv, só vejo Bebida, Bunda e Beijo)
Uma crítica bem humorada à banalidade e vulgarização que reina em nossos meios de comunicação.


Quando eu ligo a TV só vejo bebida, bunda e beijo     
Querendo assistir a algo mais instrutivo (2x)                     REFRÃO
Dou siricutico. É isso que vejo

Qualquer folhetim de uma telenovela
É a mesma balela já dá pra saber                                     Autoria:  Ricardo Bispo e Ligia Oliveira
É bumbum de fora, é beijo sem carinho
Abrindo o caminho para o BBB
Em estádio de futebol não entra birita, qualquer uma que seja
Mas nas placas que ficam em volta do gramado
 Só vejo anúncio de marca de cerveja
REFRÃO
Na guerra em busca da tal da audiência a concorrência não quer nem saber
No fogo cruzado, ninguém tem clemência e nessa guerra, o povo é quem vai perder
Na erudição dos mais altos preceitos, profundos conceitos do bunda-lelê
É só rebolation,é só embromation, recito o poema do tcherê tchê tchê
                                                                                                 REFRÃO
BBB é uma sigla bem brasileira para Besteira, Briga, e para BO
Burrice, Bobagem e Baboseira, é só Blábláblá, Bibibi e Bobobó
É carta marcada essa nova estrutura reconfigurando a televisão
E essa emissora com muita bravura faz nossa cultura ir pro ‘Paredão’


Samba de Ligia de Oliveira/ Ricardo Bispo

Intérprete: Boy do Cavaco (Grupo Número Baixo)

Músicos: Bebê 7 Cordas (Grupo Número Baixo)
Delei do Banjo e Cesinha

Acessem o clipe dessa música no Youtube:




domingo, 22 de dezembro de 2013

NEVOU NO MORRO





Noite de natal...
Patamo no morro, cercaram o Borel
O do gorro vermelho não era saci, era Papai Noel
Com soldado-de-chumbo e aviãozinho passando papel

-O que tem nesse saco? Seu véio veiaco
Não adianta fugir
- Eu só tenho presente
Eu sou inocente, pra que vou mentir?
O gordinho deu no pé
Subiu a chaminé e saiu vazado
Mas os veados deixaram na mão
E no trenó sozinho ele tava cercado
Mas foi sonoro o tapa
Que aquele velhinho levou
-Me responda que farinha é essa?
-É neve lá do Pólo Norte, doutor


“Jingle Bell” bate o sino da sirene
Joga o papel que a polícia chegou                                       REFRÃO
Olha a calma vovô, 
Quem não deve não teme

 AUTORIA: Ricardo Bispo, Pakito e Delei do Banjo   















sábado, 7 de dezembro de 2013

ARTE POÉTICA: A Substância da Metáfora


O que será da metáfora
desprovida de sua referencialidade?
Nada, assim como nada, sou eu
sem o seu sorriso imanente
e sem o silêncio loquaz que se interpõe
no intervalo que há entre um e outro beijo
e o hiato que se eterniza brevemente nesse silêncio

Metáfora não é ornamento textual na concretude das palavras
A metáfora é transcendência, palavras em orgasmo,
 aspecto visível e corpóreo do riso das estrelas
a metáfora é um pássaro ébrio hesitando em voar

Com palavras descrevo a realidade
 e com silêncios, redescrevo-a 

quem discernirá a metáfora inscrita implicitamente no silêncio de meu mundo



Samba do bom

'Teu corpo tem cheiro de sangue
Teus lábios tem gosto de fel
Teu peito tem lodo do mangue
Princesa dos quartos de hotel"

COISA RUIM DEMAIS

Samba lindo de Ivor Lancellotti e João Nogueira

Princesa dos quartos de hotel (Belo eufemismo pra palavra 'puta')

João Nogueira, gênio da música brasileira

Curta essa obra-prima no link abaixo:

http://www.sambaderaiz.net/o-homem-dos-quarenta-joao-nogueira/

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) acatou denúncia da Associação Brasileira de Difusão do Livro e de alguns consumidores a cerca de uma peça publicitária da Vivo sobre o serviço de Internet Fixa, produzido pela agência DPZ. Conforme denúncia o filme veiculado na Tv e na internet desmerecia o valor social e cultural do livro ao exibir uma cena em que um livro é usado como mero acessório para ajustar uma criança ao assento de uma cadeira em frente ao computador, passando a mensagem de que com o acesso à internet os livros como fonte de saber seriam dispensáveis.


Segundo a relatora do processo, Conselheira Nelcina Tropardi, ao justificar seu voto, embora o anúncio retrate cenas do cotidiano de muitos lares, a publicidade nesse caso deveria adotar uma postura mais conservadora, já que é inegável que o brasileiro lê muito pouco e que o anúncio reforçava, ainda que indiretamente, esse triste panorama. Ainda em seu voto, que foi acolhido por unanimidade, a relatora recomendou a alteração do conteúdo do filme.

DESMANCHA CASÓRIO


 Ela é de extremecer, ela gosta de dançar
Dança mambo, dança tango
Mas seu ramo é sambar
Faz em mim um fuzuê
Quando bota pra quebrar
No olhar uma ternura, na cintura um bambolê
O cavaco ou a viola chora ao seu bel-prazer

Quando ela requebra, cumpadre
É um pega pra capá
Marmanjo se acotovela só pra ver o seu gingar
Vai descendo de mansinho
E o burburinho é notório
Com essa cara de santinha

Desmanchou muito casório

AUTORIA: Ricardo Bispo


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PÃES, PÃES, PÃES, Ó, PÁ!

 Seguindo o hábito de todas as manhãs, o molecote adentrou a panificadora, sentindo o prazeroso e inconfundível aroma de café-expresso sendo servido na copa, saindo fresquinho, fumegante, e o cheiro de pão da última fornada, quentinho e crocante. Hum! Inigualável e saboroso cheirinho de manhã. Ao chegar a sua vez na fila, rente ao balcão, pediu como de costume:

- Me vê seis pãos!

O dono da padaria, o Seu Pedro Baltasar, português nato, vindo da Póvoa de Varzim, cidade ao norte na amada terrinha, se espevitou. Ergueu-se de sua escrivaninha, de onde estrategicamente monitorava as funcionárias do balcão, em presteza e eficiência entre baguetes e broas, mensurava a quantidade de pingados de cafés-com-leite e as doses de biritas que o rapaz da copa servia, além das camadas de Doriana que passava no pãozinho na chapa, e de onde, também, podia (e adorava) vigiar a moça do caixa contando a bufunfa que entrava e a que saía em troco. Não admitiria nunca, jamais, um brasileiro macular a pureza de seu idioma. Avançou furioso, contornando o balcão como Fernão de Magalhães a contornar o estreito no extremo sul da América. Sua pança protuberante, designer de regalos e gulodices, se assemelhava ao bumbo do Zé Pereira, e arfando, e babando, e bufando, estourou:

- Não são seis pãos e sim seis pães. Pães! Brasileiro burro. Apedeuta.  Pobrezinha da língua-mãe, pobrezinha. Brasileiros, assassinos de idioma. É culpa de Cabral, oras, pois, é culpa de Pedro Álvares! - Berrava, ora mirando o pobre do rapaz, ora mirando a imagem da Sagrada Família na prateleira da padaria. De família tradicional, católico fervoroso da tradição do Concílio de Trento, fora batizado com o nome Pedro em homenagem ao padroeiro de sua cidade natal, o apóstolo pescador e o Baltasar era referência e reverência a um dos Reis Magos.

O garoto, rosto corado, deixou o recinto carregando os pães, Esquecia-se sempre que o portuga da padaria era um cri-cri com esse negócio de se falar corretamente, prestimoso com a língua vernácula, porém no dia seguinte ao chegar a sua vez na fila... Novamente:

- Vou levar seis pãos!

- Seis pães. Pã-es! Pê-a-til-é-esse!!! Pães e não pãos! – corrigia Seu Pedro, zeloso como um Eça de Queiroz para com o padrão culto de nosso linguajar e continuava a ladainha, falando com os fregueses na fila em seu sotaque da região do Porto, apontando ao rapazote- É assim aqui, nessa terra do cão. Oh, seus meus patrícios soubessem o quanto tenho penado aqui onde Judas perdeu as ceroulas. Mortadela pr’sse povo é mortandela, salsicha é salshisha e toucinho de porco é bacon. Brasileiros de merda. Povo de merda. Desrespeitam a sagrada língua. Lapsus linguae!

Envergonhado o garoto saiu, levando consigo os pães e ódio, muito ódio de Pedro Baltasar, o mais ferrenho defensor da Última Flor do Lácio. Jurava não mais cometer tal gafe, mais pela ridicularização na frente dos outros do que por razão outra. O que afetaria a ordem do universo se pronunciasse pãos ou pães?  O sabor do pão não seria o mesmo? O preço também? 

O lusófilo bem que podia arquitetar uma promoção e oferecer um desconto aos fregueses que seguissem a norma culta da língua que tanto prezava, pensou com seus botões. Mas no dia seguinte não houve juramento que o acautelasse dos deslizes nas concordâncias e discordâncias nominais. Os berros de Seu Pedro, que avançava feito um Eusébio, bola aos pés , invadindo a grande-área, deixou isso bem claro:

- Ai ai, e olha que hoje acordei com os pés de fora, não me venhas com galhófas. Quantas vezes estarei a te dizer, gajo, que o plural de pão é pães. E é tudo culpa de Cabral, é culpa de Cabral. Povo burro! Burro e preguiçoso. Isso é preguiça. Brasileiro diminui tudo com preguiça de falar, motocicleta virou moto, fotografia virou foto, cinemateca virou cinema e discoteca virou baile. Ó pá!


Na fila sempre havia um ou dois que concordavam com o dono da padaria e sempre tinha alguém que ria, mas a maioria não gostava daquela cena, não. Até porque eram todos brasileiros e o Seu Pedro generalizava, pegando pesado, ofendia os brazucas. Tinha gente preferindo andar uns quilômetros a mais até outra padaria a ter que ouvir aquelas sandices.

“Que portuga folgado, sai lá da Ibéria, come seus bacalhaus lá e vem peidar aqui”, resmungou um homem engravatado.

“Esse luso gordo vem pra cá, enriquece às nossas expensas, do dinheiro que damos e também à custa dos empregados que explora e fica ai xingando nós, brasileiros”, murmurou um velho sarará com boné desbeiçado do Flamengo.

O rapaz pensou em bolar uma resposta, e das boas, ao portuga pão-duro. Já estava  enfezado com aquela prosopopeia toda. Porém, na manhã seguinte deixou a padaria com os pães sob o aguilhão das imprecações do lusófono intransigente. Elaborara uma resposta, mas assustou-se com sobressalto do Português indignado, dando o seu piti matinal. Seu Pedro gritava e ao mesmo tempo  mirava a imagem da Sagrada Família, para que lhe amparassem.

- Oh, mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Brasileiro não presta. Por isso que esse país não vai pra frente. Nem falar direito consegue. Distorce tudo, deturpa tudo, e gostam de enfeites e penduricalhos. Acham que palavra é carro alegórico, já reparaste que o brasileiro fala 'adivogado' e não o corretamente advogado - lamentava-se o brioso portucalense.

No outro dia o jovem perfez o caminho de casa à panificadora repetindo mentalmente qual mantra budista: pães, pães, pães, e, recitou tanto o mantra que estava quase alcançando o nirvana na fila do pão. Seu Pedro não o pegaria mais em cacoépias: pães, pães, pães, olhava com um olhar búdico pro portuga, pães, pães, pães, estava chegando a sua vez, pães, pães, PÃOS!!! (foi o que balbuciou quando chegou ao balcão), força do hábito, vazou automaticamente. Apagou-se a luz celestial do nirvana, bem-vindo de volta ao sansara.

- Assim irei aos arames! És pães, filhote de ameba! Ó povinho burro, ó pá! E não é só falando, não, na escrita também, encomendei uns cartazes aqui para a minha padoquinha e olha que o letrista fez , escreveu maisena com ‘z’, que calinada! E em vez de escrever muçarela, escreveu foi mussarela e sem dizer dos que chegam aqui e pedem duzentas gramas de salame. Só se for gramas de feno, bando de asnos. Duzentos gramas! É assim que se fala! Bradava o guardião de todos lusoparlantes. Herói camoniano. - Brasileiros de merda. Ainda fazem anedotário dos portugueses, dizem que português é que é o burro, ó pá. É tudo culpa de Cabral.

- Mas maisena não é com ‘z’? Indagou alguém da fila, um dos que anuíam com a implicância do portuga sobre a prosódia da língua materna.

- Não, com ‘z’ é só na marca de uma embalagem, aliás, maisena, não, amido de milho. Por obséquio!

Com ar desafiador o garoto interrompeu. Não mais levaria desaforo pra casa:

- Brasileiro burro, é? Saiba que meus avós são portugueses – revelou–lhe. 

Isso não amainou nem um pouco a fúria de Seu Pedro. A ira de um mar encrespado.

- Rebeubéu, pardais ao ninho! Ah, vás chatear o Camões, avô português? Só se for açoriano. Só pode ter vindo dos Açores, ó pá! Brasileiros de merda, povinho sem futuro. Tanto lugar para Cabral ancorar nesse mundo de Deus e foi para nesses confins! Exclamava olhando ao céu, lastimoso, como um ator numa peça de gilvicentina.
                       


“Tá tão lanhado com o Brasil, volta pra Lisboa”, pensou um senhor, que seria o próximo da fila.

“Culpa de Cabral é um escambau”, deixou escapulir uma senhorinha de cabelo lilás, lá atrás.

“Esse portuga balofo podia fechar esse troço e ir dar aula de Português nas escolas, né”, rezingou uma mulher, que já demonstrara inquietação, consultando as horas no visor do celular de minuto em minuto. Chegaria atrasada no serviço por causa dos chiliques de Seu Pedro.

Enfim, chegou o dia 'D'. O rapaz cansara de engolir quieto, já tava fula-da-vida, não ia mais passar carão na frente de senhor-ninguém. Ah, aquele lusitano sovinas dançaria o fado em suas mãos. Chegou ao balcão e pediu de propósito: - Quero meia dúzia de pãos!

 Seu Pedro Baltasar, o sangue ibérico a fervilhar- lhe à mente, saltou, em seu faniquito habitual, como todas as manhãs, igual a um cachorro pertinaz, que incansável e obstinadamente, avança ao portão, a latir para o carteiro, todos os dias.

- Apedeuta. Brasileiro burro. Pães e não pãos! Já te disse milhões, trilhões de vezes.

O rapaz pegou o pacote de pães, mas estancou, mirando o estressado português.

- Que foi rapagão, o que queres mais, porquê essa cara de caso, ora, pois?

- Estou com uma dúvida – o jovem ensaiava um sorriso traquinas no canto da boca.

- Diga logo, cabeça de alho chocho. Desembucha aí, ó pá!

E o que o menino diria faria a fila do pão e os funcionários da padaria vibrarem como um drible da vaca do Neymar em cima do Cristiano Ronaldo. E faria Seu Pedro Baltasar ter vontade de correr feito de D. João VI fugindo de Napoleão e suas tropas.

- Eu não sei se mando o senhor tomar no cu, nos cus ou nos cuães.


Inspirado nas piadas do amigo Daniel Corte, o stand-up sentado na cadeira