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segunda-feira, 27 de abril de 2015

A barca de Omulu



Autoria: Janaina de Souza e Ricardo Bispo
  
Quando eu me transformar
No sopro da brisa da manhã
E meu corpo alquebrado, cansado
Prostrado nos braços de Nanã
Deitado no leito da terra
Tornando-se parte da terra
E nos portais do Orum
Ogum, que é o dono da guerra
Me abençoar por tantas batalhas vencidas, perdidas
Jamais desertadas

Vem do infinito vazio
No rio da eternidade azul
O leme trançado com palha da costa              REFRÃO
Ás águas da vida, na proa que encosta.
A barca de Omulu
A barca de Omulu
  
Quando eu me transformar
No sopro da brisa da manhã
E os medos e sonhos se decomporem
E as imagens no brilho dos olhos se forem
Nos brandos ventos de Iansã
Há finitude no pranto
Na brevidade do encanto
E nos portais do Orum
Oxum com delicado manto
Vier me abraçar
Nos mares de Odoyá
Há a paz de Oxalá

Vem do infinito vazio
No rio da eternidade azul
O leme trançado com palha da costa              REFRÃO
Ás águas da vida, na proa que encosta.
A barca de Omulu
A barca de Omulu

terça-feira, 21 de abril de 2015

O SHOW CONTINUOU



O show continuou
Mesmo com a ribalta apagada
A Vila cantarolou
O samba que teceu a madrugada
Emudeceu...O lararaiá
Do poeta imortalizado
Pelo sorriso que vai raiar
Do seu canto encantado
O jequitibá agradeceu
A última flor do Lácio também
Candeia se enobreceu
E os anjos disseram amém!

Quem fez do Parnaso, seu quilombo
E fez do poema a sua lei
Fez da tamarineira, imponente baobá
No seu cantar vi que eu também sou rei
Se o céu fosse poeta
A singeleza de todo universo
Seria a rima rica de seus versos
Se um jardim em flor fosse compositor
Rosas e camélias seriam canções de amor

Mas Deus quem quis assim
Escolheu você, Luiz
Pra expressar a pureza da vida
Num samba para o meu povo cantar
Teu sonhar me fez notar
Que o desamor vagou ao esmo
O poeta é um médium
Que recebe a si mesmo

AUTORES: Emersson Ursoo / Ricardo Bispo/Charlie Dief


Assista o vídeo com o áudio em voz e violão (copie o link e cole no seu navegador) : https://www.youtube.com/watch?v=Lvc8rZTBEw0 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Comparo a música aos arvoredos...


 Escrevi esse ensaio há uns quatro anos e com a introdução do texto da postagem mais recente, sobre o CD 'Na cadência e na elegância' do Emersoon Ursoo, onde analiso os hits da atualidade de Anitas e Fiuk's da vida me lembrei desse artigo e partilho com você, amigos, dom-mágicos.

Uma reflexão profunda sobre Indústria do Entretenimento, Cultura de Massa, Função do Compositor, Diferença de Bem Artístico e Bem Cultural, tudo sobre a metáfora dos arvoredos.



Comparo a música aos arvoredos, porque, mais do que como obra artística, tenho-a também como um bem cultural. Mas para entendê-la como bem cultural não podemos esquecer-nos de sua dinâmica “emissor-receptor”. O emissor é o compositor, intérprete ou músico. O receptor, o público.

Toda música tem um alvo. O outro. Sob o jugo tirano da mídia, a música é produto de consumo, o alvo é a massa consumidora, que a compra, consome e exige mais, posto que, a ética do consumismo, filho primogênito do capitalismo, é a quantidade.  Nas vias da alta cultura a música é bem artístico, o alvo é o apreciador de obra de arte, que a contempla e ao contrário da massa no afã do consumo desenfreado, não a descarta, pois para ele música não é um bem descartável, a preserva. Ao invés de quantidade, ele almeja qualidade.

Voltando a falar dos arvoredos, a beleza das árvores é a beleza das flores. De suas flores. Os ipês com suas grinaldas brancas, as cerejeiras com suas guirlandas vermelhas. Há ali também uma dinâmica “emissor-receptor”. O emissor é Deus, que por meio da mãe-natureza enfeita as madeixas de árvores e arbustos com adornos floridos, multicores. Os receptores não são os jardins ou bosques, estes são apenas a plataforma para a manifestação de tamanha beleza. Os receptores somos nós humanos que conferimos um juízo de valor ou de gosto à estética das flores.

E é atingindo o receptor que a música deixa de ser bem artístico e se torna bem cultural. Quando ela interfere no outro, o estimula, o diverte, o consola ou o incomoda, e nessa sequência, o influencia. Ao repercutir sobre o meio social se transforma em bem cultural. A música trancada dentro da gaveta, guardada numa pasta, arquivada num drive de mp3 e que não é compartilhada é apenas, e tão-somente, uma criação artística. Não contribui para cultura, não é um bem cultural, simplesmente porque não influencia o meio.

E porque comparo a música as árvores, lembro-me dos lindos manacás que florescem em fevereiro. Nessa época do ano é possível vê-los garbosos, cheios de pompa, tingindo as encostas da Serra do Mar de lilás e cor-de-rosa. Porém, passados alguns meses suas flores murcham, perdem o viço, a vitalidade, a cor. Os manacás já não mais se destacam. Quem quer que suba a Serra e divise a mata densa não poderá distingui-los em meio ao verde e seus dégradés. São assim as músicas passageiras, modinhas de verão, paixões de carnaval, sucessos espontâneos, efêmeros, transitórios. Tais quais aos manacás encantam, mas logo somem sem deixar rastro ou lembrança. São descartáveis.

Belos manacás

A música para influenciar outrem e se tornar bem cultural tem que conter uma mensagem. O emissor deve ter algo a dizer ao receptor ou o seu canto, caso contrário, igualar-se-á ao canto das cigarras, que não tem conteúdo reflexivo, pois cigarras não sabem pensar. O compositor é um formador de opinião. Mas como formar opiniões se ele mesmo não tiver as suas? A música para se tornar patrimônio popular ter que ir além dos “bunda-lelês, baba-babys e rebolations”, essas já nem são manacás, são embaúbas. Árvores grandes, mas, vazias, ocas, inúteis. A polpa muito mole, não presta para lenha, nem pra fazer carvão, tampouco para canoa.

Mas há arvores mais raras, que crescem devagar, vão ficando mais altas, mais altas, mais altas, se distinguindo das outras. Seja fevereiro, seja setembro, pode-se identificá-la. Assinalam florestas mais antigas, seculares e servem de referência a muitas gerações. Sua madeira é nobre, é madeira de lei. É boa lenha, mobília duradoura e embarcação segura. Dá violão e cavaquinho de nobre linhagem. Árvores como a canela, o pau-pereira do campo, o jacarandá e a mais bela e frondosa de todas: a árvores do Samba.






quarta-feira, 16 de abril de 2014

PRA OUVIR: Na cadência e na elegância

Em uma época onde o 'Show das Poderosas' de  Anitta (essa Kelly Key repaginada, tão efêmera quanto o hit 'Baba baby'), é eleita a melhor música do ano num dos programas televisivos de maior abrangência (não digo audiência porque o IBOPE é um instituto fantasma e não sei como medem a frequência de assistência das redes de tevê. Será que dentro de meu aparelho televisor tem algum chip instalado que revela pro IBOPE os canais que sintonizo?). E de quebra se vê um Luan Santana (versão atual do Felipe Dylon) aclamado pela massa.

Tempos desoladores esses para os amantes da boa música?

Sinais dos tempos? É isso que há de novo no panorama sonoro brasileiro? Ontem lek, lek,lek, hoje lepo lepo lepo.

Músicas infantilizadas, com melodias repetitivas, no padrão melódico das cirandas e parlendas. Letras paupérrimas com rimas previsíveis,além das detestáveis onomatopeias e tatibitates (a fala de adulto querendo imitar a pronúncia de crianças, distorcendo o som de algumas palavras).

E os artistas consagrados, então, só sabem regravar regravações?

Não há um sopro de renovação em nosso cancioneiro popular?

Uma luz no fim do túnel do samba urbano?

Nenhum alento no processo criativo de nossos compositores?

Sinais dos tempos?

Não! (Sonoro não).

Tem muita...muita coisa boa, de qualidade sendo produzida. O samba então, fechou 2013 com mais de vintes álbuns novos de tremendo bom gosto (Não confundir com um grupo homônimo, carioca de repertório,digamos, um gosto tanto quanto duvidoso).

Tem Goiabada Cascão em forma de cd na área, sim, tá ai o primoroso 'Na cadência e na elegância' do paulistano Emersoon Ursoo que não me deixa com nariz pinochiano.

Afilhado de Mestre Monarco e de Dona Ivone Lara, de quem é parceiro. Coleciona parcerias com nomes como T-Kaçula, Luis Carlos da Vila, Walter Alfaiate, Milbé, Edvaldo Galdino, Délcio Carvalho, Dorinho Marques, Ricardo Rabelo e Marquinho Dikuã. Foi nos anos 1990 entre encontros de choro e rodas de samba que despontou empunhando o estandarte do samba de raiz,ou samba tradicional, como querem alguns.

Numa época onde muitos de sua idade que portavam cavaquinho ou pandeiro se debandavam, de cabelos oxigenados e roupas 'me-chupe' para o fugaz e incerto sucesso midiático nas ondas daquilo que se convencionou chamar de  'pagode', e também, mui apropriadamente,  sambanejo (canções românticas ou pululantes aos moldes dos sucessos de duplas sertanejas, mas com orquestração de samba).

Nesses idos tempos, Ursoo mandava em Ré Maior: galo que vai atrás de marreco, morre afogado!



Ao optar pela porta estreita do compromisso com o valor cultural, resistindo aos clamores tentadores da sereia-hidra, a mídia traiçoeira, Emersoon Ursoo hoje, amadurecido, como o pinho de um bom e velho 7 cordas, coleciona obras de grande riqueza musical, quer melodica, quer poeticamente.

Me causa espécie quando vejo ele sendo apresentado como grande revelação do samba e um Diogo Nogueira é mostrado como alguém de carreira já consolidada. É o poder da mídia. Revelação como? O primeiro cd da carreira do Ursoo, 'Respeito ao Samba' é de 2002, já o filho do grande João estreou seu cd em 2007.

O álbum 'Na cadência e na elegância' é um convite pra sonhar. Emersoon com sua voz serena, bem postada.Voz de sambista, acalenta quem o ouve. A faixa-título que abre o disco num andamento sincopado ornamentada pelos arranjos exuberantes de Charlie Dief com um naipe de sopro é um convite pra dançar.

A sequência é de tirar o fôlego. 'Encontro das auras' (com Dona Ivone Lara e Luis Carlos da Vila), vai no imo.‘Nota musical orvalhada pelo encantamento’. Como diria Jorge Aragão (e eu não canso de parafrasear) 'rasga a alma com delicadeza'. Um dos sambas mais bonitos que já ouvi.

Mas aí Emersoon maltrata, 'Minha Paz', uma pérola, uma pedra de nácar lapidada a três mãos iluminadas (parceria de Dikuã e do imortal Délcio Carvalho). Música composta há quase uma década e pincelada numa tacada de mestre do artista. O dueto com Flávia Oliveira é magistral. Afinada e cativante, Flávia enfeitou de estrelas o véu dessa canção.

No rastro desse cometa outra obra-prima 'Novo Encanto' coautoria de  Ricardo Rabello e de novo, a poetiza da Serrinha, Dona Ivone Lara. Aí é covardia, Ursoo. Canção de amor que 'vira do avesso e revira o avesso'.Essas três melodias são um convite para contemplação.

'Feito céu antes de chover/ fechado estou depois de te perder'. Com essas linhas sublimes inicia-se 'Tristeza Atroz',a segunda do CD assinada só pelo Emersoon, a primeira é a faixa-título do CD. Samba dolente que vai fundo. Introspectivo. Experiências sensoriais que só música de boa cepa pode proporcionar. Convite pra se emocionar.

Seguindo em sua caneta solitária 'Clausura', samba-canção de Ursoo que remonta à musicalidade genial de Eduardo Gudim: 'Esses meus olhos/ na mandala do destino/viram os teus pelo caminho/ e brilharam sem cessar. Em 'Morena Encantada', com Milbé, uma loa à musa inspiradora. A letra bem no estilo do Ursoo, nada de rima pobre. A linguagem metafórica dão mais beleza e suavidade como nessas passagens: 'tu és uma rosa singela' e 'olhos tão lindos feito esmeraldas'. Convite para se encantar.

Com Dodô Andrade, Anderson Alves e Deley Antonelli, Ursoo compôs a bela 'Lágrimas'.Chamamos atenção à interpretação emotiva do cantor. E com Dorinho Marques, 'Lamento à natureza' um dos pontos altos do cd. Convite pra reflexão.

Fechando com chave de ouro, o lindo samba 'Parceria', parceria com Charlie Dief e Ricardo Rabello, este último divide os vocais com Ursoo. Bela sacada a comparação do encontro da letra e melodia, algo natural como tempestade e trovão, a lua e o céu, a fauna e a flora.


Recomendo.

Copie o link abaixo, cole no navegador e aprecie esse belo CD, além de sambas de outros álbuns de Emersoon Ursoo.

http://palcomp3.com/emersonurso/01-na-cadencia-e-na-elegancia/



domingo, 30 de março de 2014

Da série DA COR DO FUTEBOL: Tomo 2


A mais exata demonstração de incivilidade e atraso moral e espiritual, o Racismo, anomalia psicoafetiva, reverberado, ultimamente, nos cantos e cânticos das arquibancadas é apenas um eco de um racismo secular, sutil, impronunciado nas ruas de nossas cidades, no trânsito, nos restaurantes dos grandes chef’s, nas lojas de carros importados, nas feiras náuticas e congêneres.

Nas salas de reuniões de grandes executivos, nos salões de formaturas das melhores universidades públicas.

Na portaria dos edifícios de luxo, no hall de entrada dos grandes hotéis,

 Nas instituições bancárias e financeiras, nos orfanatos e a fila de crianças para a adoção.

A voz explicitada da geral dos estádios é a mesma voz, em âmbito privado, implicitamente, nos rádios comunicadores dos seguranças das redes de hipermercado e das viaturas do aparelho de segurança pública do Estado.


O ruído dos grunhidos onomatopaicos imitando o guincho de símios é o mesmo ruído que corre pelos corredores (na roupagem poética de sofismas) das agências de publicidade e das agências de emprego.

Comum ao fenômeno chamado comportamento de massa, onde a individualidade se dilui num todo e o individuo se oculta e se integra a um coletivo, a demonstração intolerante de discriminação racial e o preconceito de cor, reprimida pelas convenções sociais do Brasil que não admite tais manifestações se libera numa situação de homogeneidade de condutas.


Nunca será demasiado lembrar que a censura à exposição pública do racismo ditada por convenções sociais no Brasil não significa que a nossa sociedade não seja preconceituosa. Como diz, meu amigo Carlinhos Eletropaulo, o Brasil é o país do paradoxo.



Confira o Tomo 1 dessa série:

(Copie e cole no navegador) 

http://pordomoumagia.blogspot.com.br/2014/02/da-serie-da-cor-do-futebol-tomo-1.html

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fernando Queiroz é filho de um dos homens mais ricos e influentes de São Vicente. Um jovem que sempre se incomodou com o fato de ter do bom e do melhor, enquanto muitos mal tem o que comer. Num belo dia resolve largar as mordomias da mansão de sua família e decide ir catar papelão com um carroceiro do México-70.  




   Um verdadeiro espetáculo bordava de cores o céu azul da favela. Pipas com suas extensas rabiolas. Adernavam... Adornavam... Bailavam na imensidão tendo como fundo-de-cena tiras de nuvens-algodão semelhantes à clara de ovo batida em ponto de neve e respingada pela gema dourada do sol.
FOTO: Bernado Tabak/ G1

    Jardas e jardas de linha-10 desenrolavam-se dos carretéis estendendo ao longe pipas, cartolinhas e papagaios num sonho de liberdade. A cada debicada elas curvavam-se no ar, altaneiras, balançando a cauda como cometas de papel crepom. De repente duas delas se estranharam no alto. Enlaçaram-se. Enroscaram-se. Duelaram-se. Duas capoeiristas ao som dos ventos berimbaus. A linha de uma delas, mais afiada, de súbito, retesou-se. Revestida por uma camada de pó de vidro e goma rompeu o elo vital da pipa rival que flutuou, sem vida e sem encanto, igual a uma folha que o outono poda dos arvoredos.


   Empunhando enormes varas de bambu, a meninada em disparada afluía da Rua Dois, da Rua Seis, da Rua Cinco, do Trevo, da Rua do Meio, como caçadores de balão, convergiam ao Campão. Pés no chão de barro, olhos no céu de pipas.

   - Tá acordado, moço? – estranhou Beto, ao encontrar Nando desperto. Beto demonstrava sobriedade num indício de que o álcool e seus teores vaporizaram-se em meio ao reboliço efervescente da paixão.


O texto acima é um trecho do romance Nando pelas ruas do México-70, de autoria do colunista dessa página e de seu pai Antônio Bispo. A previsão de publicação é do 2º semestre de 2014.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

“É SÓ BBB”





BBB 19.jpgÉ SÓ BBB (Quando ligo a tv, só vejo Bebida, Bunda e Beijo)
Uma crítica bem humorada à banalidade e vulgarização que reina em nossos meios de comunicação.


Quando eu ligo a TV só vejo bebida, bunda e beijo     
Querendo assistir a algo mais instrutivo (2x)                     REFRÃO
Dou siricutico. É isso que vejo

Qualquer folhetim de uma telenovela
É a mesma balela já dá pra saber                                     Autoria:  Ricardo Bispo e Ligia Oliveira
É bumbum de fora, é beijo sem carinho
Abrindo o caminho para o BBB
Em estádio de futebol não entra birita, qualquer uma que seja
Mas nas placas que ficam em volta do gramado
 Só vejo anúncio de marca de cerveja
REFRÃO
Na guerra em busca da tal da audiência a concorrência não quer nem saber
No fogo cruzado, ninguém tem clemência e nessa guerra, o povo é quem vai perder
Na erudição dos mais altos preceitos, profundos conceitos do bunda-lelê
É só rebolation,é só embromation, recito o poema do tcherê tchê tchê
                                                                                                 REFRÃO
BBB é uma sigla bem brasileira para Besteira, Briga, e para BO
Burrice, Bobagem e Baboseira, é só Blábláblá, Bibibi e Bobobó
É carta marcada essa nova estrutura reconfigurando a televisão
E essa emissora com muita bravura faz nossa cultura ir pro ‘Paredão’


Samba de Ligia de Oliveira/ Ricardo Bispo

Intérprete: Boy do Cavaco (Grupo Número Baixo)

Músicos: Bebê 7 Cordas (Grupo Número Baixo)
Delei do Banjo e Cesinha

Acessem o clipe dessa música no Youtube:




domingo, 22 de dezembro de 2013

NEVOU NO MORRO





Noite de natal...
Patamo no morro, cercaram o Borel
O do gorro vermelho não era saci, era Papai Noel
Com soldado-de-chumbo e aviãozinho passando papel

-O que tem nesse saco? Seu véio veiaco
Não adianta fugir
- Eu só tenho presente
Eu sou inocente, pra que vou mentir?
O gordinho deu no pé
Subiu a chaminé e saiu vazado
Mas os veados deixaram na mão
E no trenó sozinho ele tava cercado
Mas foi sonoro o tapa
Que aquele velhinho levou
-Me responda que farinha é essa?
-É neve lá do Pólo Norte, doutor


“Jingle Bell” bate o sino da sirene
Joga o papel que a polícia chegou                                       REFRÃO
Olha a calma vovô, 
Quem não deve não teme

 AUTORIA: Ricardo Bispo, Pakito e Delei do Banjo   















quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência Negra



"E é perante o mapa-múndi
Que o racista se confunde
Eis o mistério do Atlas
Desnorteado, ele viu
 que o mapa do Brasil
Com o da África se encaixa"

MISTÉRIO DO ATLAS, trecho de um samba de Ricardo Bispo

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

PRELÚDIO DO ALVORECER



Quando senti você tocar em mim
tremulamente
Meu coração sorriu de euforia
Por entre os vãos horizontais da persiana
O luar bordou-se em listras em nossa cama

Seu gemido mavioso a pairar
Reverberando interjeições de prazer
Sonoplastia de um sonho bom
És o prelúdio do alvorecer

E a noite intercede a Cronos
Pra durar um pouco mais
Testemunhando que somos
O esplendor dos casais

E o sol jubilamente
desponta espargindo calor
No desfecho sublime
Do nosso encontro de amor



AUTORIA: Ricardo Bispo :

domingo, 15 de setembro de 2013

ESCREVO



Escrevo...
Sou escravo de um impulso
Subjuga o meu pulso
Resistir lhe não me atrevo

Transcrevo...
Por vazão à agonia
Ou por mera hipergrafia
Elucidar-me, será que devo?

Inscrevo...
Efêmeras definições
Eternas inquietações
Se avolumam neste acervo

Reescrevo...
Compulsório ato ou dom
Sou pedaço de Saigon
Incrustado em Saravejo

Escrevo...
E o fluxo em minha mente
Perpassa diuturnamente
Qual arauto medievo

Transcrevo...
Simples trivialidades
Que por subjetividades
São temas de grande relevo

Inscrevo...
Culpa da misantropia
E das idiossincrasias
Trago de tempos primevos

Reescrevo...
Prescrevo incessantemente
Feito água na corrente
No leito de um rio longevo


AUTORIA: Ricardo Bispo      
 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

VLT e Nando pelas ruas do México 70

Em época de obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) em São Vicente, que bom recordar dos tempos do velho trem na Vila Margarida num trecho do romance Nando pelas ruas do México 70, parceria minha e de meu pai, Antônio Bispo e que logo, logo será publicada.




"Nando tornou a deitar. Meditava sobre sua vida, desde a infância agoniada pelo divórcio dos pais até a faculdade de Direito que trancara há dois meses. As pálpebras pesaram e o sono o envolveu numa redoma protetora contra as adversidades do ambiente. Ouvia ao longe o familiar taque-talaque, taque-talaque do trem-de-carga cortando a madrugada silente. A linha férrea que cruzava a Vila Margarida, nos subdistritos de Planalto Bela Vista e o Matteo Bei demarcava a fronteira com os bairros Beira-Mar e Esplanada dos Barreiros. Aquele som foi quem embalou Nando. A mesma via férrea que ligava a Vila Margarida a área continental de São Vicente, embrenhando-se rumo a Vila Ponte Nova, o Rio Branco, Jardim Quarentenário e etecéteras,  passava também por trás de sua casa ao sopé do morro do Itararé. Desde criança, habituara-se a adormecer sobre o som do vagar do trem. Por fim, dormiu ninado, mimado pelo cântico monótono dos dormentes nos trilhos longínquos."



terça-feira, 9 de julho de 2013

SE O OBAMA FOSSE BRASILEIRO


Se o Obama fosse brasileiro não seria senador
Muito menos presidente
Não seja inocente, faça-me o favor                                                          
Se ele fosse boleiro, seria um bom jogador
Mas quando se aposentasse, Obaminha, não seria treinador

BREQUE - Chofer de donzela na telenovela se fosse ator!

Parentes residentes em aldeia queniana
Que recentemente Obama encontrou
Fosse aqui não teria prosa
Pois seu Rui Barbosa, papéis da escravidão, queimou
Lá ele é presidente, é alta patente, ele é que manda
Mas se ele nascesse aqui não seria nem presidente de escola de samba


Se o Obama fosse brasileiro não seria senador
Muito menos presidente
Não seja inocente...

BREQUE – Talvez com sorte invertesse tal situação, pois toda regra tem a sua exceção!

Usar distintivo, ser executivo ou cirurgião, não pode!
No máximo alcançar a fama
Juntar uma grana cantando pagode
Analisando com frieza, mas que baita covardia
Um monte de Obama da Silva, dos Santos
Na guarita de uma portaria


AUTORIA: Ricardo Bispo










terça-feira, 2 de julho de 2013

NA MADRUGADA DE UM DOMINGO CHUVOSO

 Conto vencedor da etapa municipal do Mapa Cultural Paulista 2013/14, por São Vicente



Norton despertou num sobressalto. Que explosões seriam aquelas? Seria um pesadelo? Chovia ainda? Sim. Tateou o criado-mudo à cata do celular. A luz de LED do visor do telefone iluminou momentaneamente o quarto. Duas da manhã e ainda chovia. Caracoles! E chovia forte – o ritmo das bátegas da chuvarada que percutiam sobre o toldo da lan-house lá embaixo lhe confidenciava. Teria que voltar a dormir. Levantaria às sete. Levantar de manhã em pleno domingo é dose pra leão doido. Ainda mais um domingo chuvoso. Domingo friento.

Era chuva de vento. A porta galvanizada de uma estamparia, noutro quarteirão, arfava ruidosamente ao ser distendida pela ventania incessante. Boom! A mesma explosão do sonho. Não! Não era sonho. Não era explosão. Norton se lembrou, e lamentou, a porta do banheiro do andar debaixo que esquecera destravada e agora se debatia aos influxos da corrente de ar. Bah! Nada nesse universo lhe retiraria do quentinho aconchegante daquele edredom. A sinfonia percussiva da chuva prosseguia lá fora. Aprazível e hipnotizante. Relaxante, tamborilando sobre o toldo de policarbonato da lan-house. Como é gostoso dormir com o barulho da chuva. Faltava apenas ela. Ali naquela cama! Agarradinhos em conchinha, pés entrelaçados, os caracóis de seus sedosos cabelos ora lhe afagando, ora lhe fazendo cócegas, ora lhe sufocando. Sob a harmonia melódica da chuva... Boom! A bendita da porta!!!

Impossível pegar no sono novamente com aquele bate-bate intermitente. Ok, você venceu, batatas fritas! Norton ergueu-se, contrafeito, cambaleante, envolto na colcha, caçando com os pés a sandália embaixo da cama. Ah, vou só de meia mesmo, decidiu. Raios riscavam o céu e seus clarões se acendiam na parede do quarto, oposta à janela, como se fossem flashes fotográficos. Largou a colcha sobre o leito desgrenhado e vestiu o velho  casaco que pendia da cabeceira da cama. Desceu as escadas zonzo como um morto-vivo, trancou a porta deselegante e voltou pro quarto. Pôs-se a espiar, pelos vãos da persiana, a rua desértica lá fora.

Desembaçou o vidro opaco da janela com uma das mangas do casaco. Constatou, de encontro à luz do poste, a intensidade da chuva que, compacta, caía em diagonal.

Rasgando a solidão daquela rua a carcaça de um guarda-chuva passou tropicando aos safanões da ventania. As abas esvoaçantes do tecido preto que se desprenderam das varetas tremulavam no ar à imagem de um batman arrastado pela ira de um tufão. Herói impotente. Guarda-chuvas destruídos em meio a um temporal são como heróis impotentes.

Norton semicerrou os olhos e percebeu, lá longe, na orla da praia, o vulto das palmeiras pescoçudas envergadas pelo vendaval. Imaginou a bandeira gigante do Brasil com seus mais de cem quilos estufando, como um lenço de abano, no mastro imponente no pico do Morro dos Barbosas. De volta a sua rua, o facho luminoso dos postes incidia sobre o asfalto molhado e taciturno e estendia uma faixa prateada, como se alguém desdobrasse no chão uma trilha de papel laminado picotado.

Entrecortando o zunido do vento o traquetralaque de uma latinha de cerveja vazia ou de refrí que vinha em cambalhotas, também arrastada pelo vento, se intensificou. Traquetralaque, traquetralaque. Vinha de longe. Do balcão de uma bodega noturna talvez. Traquetralaque, ou talvez de algum inferninho carregado de fumaças de cigarro, de berros orgíacos de despudoradas mulheres. Berros abafados pelo silêncio solitário de um poeta noctívago. Ou talvez de uma festa chata, pois festas em noite de temporal são chatíssimas. Traquetralaque.

Norton deitou-se na cama. Revirou-se na cama. Olhou o porta-retratos sobre o criado-mudo. 
Olhos ermos e tristes como as luzes solitárias da Ponte Pênsil que iluminava a Baía de São Vicente na escuridão liquefeita daquela madrugada. No porta-retratos ela. Sua Vênus de Milo. Sua Vênus Williams. Ali, na cama, só faltava ela.