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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fernando Queiroz é filho de um dos homens mais ricos e influentes de São Vicente. Um jovem que sempre se incomodou com o fato de ter do bom e do melhor, enquanto muitos mal tem o que comer. Num belo dia resolve largar as mordomias da mansão de sua família e decide ir catar papelão com um carroceiro do México-70.  




   Um verdadeiro espetáculo bordava de cores o céu azul da favela. Pipas com suas extensas rabiolas. Adernavam... Adornavam... Bailavam na imensidão tendo como fundo-de-cena tiras de nuvens-algodão semelhantes à clara de ovo batida em ponto de neve e respingada pela gema dourada do sol.
FOTO: Bernado Tabak/ G1

    Jardas e jardas de linha-10 desenrolavam-se dos carretéis estendendo ao longe pipas, cartolinhas e papagaios num sonho de liberdade. A cada debicada elas curvavam-se no ar, altaneiras, balançando a cauda como cometas de papel crepom. De repente duas delas se estranharam no alto. Enlaçaram-se. Enroscaram-se. Duelaram-se. Duas capoeiristas ao som dos ventos berimbaus. A linha de uma delas, mais afiada, de súbito, retesou-se. Revestida por uma camada de pó de vidro e goma rompeu o elo vital da pipa rival que flutuou, sem vida e sem encanto, igual a uma folha que o outono poda dos arvoredos.


   Empunhando enormes varas de bambu, a meninada em disparada afluía da Rua Dois, da Rua Seis, da Rua Cinco, do Trevo, da Rua do Meio, como caçadores de balão, convergiam ao Campão. Pés no chão de barro, olhos no céu de pipas.

   - Tá acordado, moço? – estranhou Beto, ao encontrar Nando desperto. Beto demonstrava sobriedade num indício de que o álcool e seus teores vaporizaram-se em meio ao reboliço efervescente da paixão.


O texto acima é um trecho do romance Nando pelas ruas do México-70, de autoria do colunista dessa página e de seu pai Antônio Bispo. A previsão de publicação é do 2º semestre de 2014.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

VLT e Nando pelas ruas do México 70

Em época de obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) em São Vicente, que bom recordar dos tempos do velho trem na Vila Margarida num trecho do romance Nando pelas ruas do México 70, parceria minha e de meu pai, Antônio Bispo e que logo, logo será publicada.




"Nando tornou a deitar. Meditava sobre sua vida, desde a infância agoniada pelo divórcio dos pais até a faculdade de Direito que trancara há dois meses. As pálpebras pesaram e o sono o envolveu numa redoma protetora contra as adversidades do ambiente. Ouvia ao longe o familiar taque-talaque, taque-talaque do trem-de-carga cortando a madrugada silente. A linha férrea que cruzava a Vila Margarida, nos subdistritos de Planalto Bela Vista e o Matteo Bei demarcava a fronteira com os bairros Beira-Mar e Esplanada dos Barreiros. Aquele som foi quem embalou Nando. A mesma via férrea que ligava a Vila Margarida a área continental de São Vicente, embrenhando-se rumo a Vila Ponte Nova, o Rio Branco, Jardim Quarentenário e etecéteras,  passava também por trás de sua casa ao sopé do morro do Itararé. Desde criança, habituara-se a adormecer sobre o som do vagar do trem. Por fim, dormiu ninado, mimado pelo cântico monótono dos dormentes nos trilhos longínquos."