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domingo, 30 de março de 2014

Da série DA COR DO FUTEBOL: Tomo 2


A mais exata demonstração de incivilidade e atraso moral e espiritual, o Racismo, anomalia psicoafetiva, reverberado, ultimamente, nos cantos e cânticos das arquibancadas é apenas um eco de um racismo secular, sutil, impronunciado nas ruas de nossas cidades, no trânsito, nos restaurantes dos grandes chef’s, nas lojas de carros importados, nas feiras náuticas e congêneres.

Nas salas de reuniões de grandes executivos, nos salões de formaturas das melhores universidades públicas.

Na portaria dos edifícios de luxo, no hall de entrada dos grandes hotéis,

 Nas instituições bancárias e financeiras, nos orfanatos e a fila de crianças para a adoção.

A voz explicitada da geral dos estádios é a mesma voz, em âmbito privado, implicitamente, nos rádios comunicadores dos seguranças das redes de hipermercado e das viaturas do aparelho de segurança pública do Estado.


O ruído dos grunhidos onomatopaicos imitando o guincho de símios é o mesmo ruído que corre pelos corredores (na roupagem poética de sofismas) das agências de publicidade e das agências de emprego.

Comum ao fenômeno chamado comportamento de massa, onde a individualidade se dilui num todo e o individuo se oculta e se integra a um coletivo, a demonstração intolerante de discriminação racial e o preconceito de cor, reprimida pelas convenções sociais do Brasil que não admite tais manifestações se libera numa situação de homogeneidade de condutas.


Nunca será demasiado lembrar que a censura à exposição pública do racismo ditada por convenções sociais no Brasil não significa que a nossa sociedade não seja preconceituosa. Como diz, meu amigo Carlinhos Eletropaulo, o Brasil é o país do paradoxo.



Confira o Tomo 1 dessa série:

(Copie e cole no navegador) 

http://pordomoumagia.blogspot.com.br/2014/02/da-serie-da-cor-do-futebol-tomo-1.html

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Da série: DA COR DO FUTEBOL: Tomo 1


Foi emblemático o desdobramento do que ficou conhecido como o ‘Caso Grafite’ quando o zagueiro argentino Desábato recebeu voz de prisão ao sair de campo, em pleno Morumbi, acusado pelo crime de racismo, assim que o juiz apitou o fim da partida entre São Paulo e Quilmes, pela Copa Libertadores da América, em 2005.

Segundo o atacante brasileiro, num lance de jogo, o argentino o teria ofendido, xingando-o de ‘negro de merda’.

Emblemático porque trouxe à tona a questão do preconceito de cor nas relações futebolísticas no Brasil.

Mais emblemático ainda foi o apontamento de Luis Felipe Scollari, sobre o caso. À época treinador da Seleção de Portugal e em visita ao Brasil, Felipão disse que a prisão de Desábato  fora um exagero, que dentro do gramado há coisas piores e que são meras provocações sempre na tentativa de se desestabilizar o adversário.

Segundo Ronaldo Helal, pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), num estudo sobre a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina, após uma estadia em Buenos Aires pesquisando, concluiu que a animosidade é mais forte do lado tupiniquim. Os hermanos, ao contrário, admiram mais do que odeiam o futebol brasileiro. Sobretudo a 'alegria de jogar' dos brazucas, imortalizada pela imagem mítica de Garrincha e Pelé e retroprojetada em jogadores como Cafu, Ronaldinho Gaúcho, Robinho (e porque não Neymar, à época da pesquisa um desconhecido).

Meses depois do jogo entre São Paulo e Quilmes, as seleções de Brasil e Argentina protagonizaram a final da Copa das Confederações na Alemanha, com uma sonora goleada do escrete canarinho. 4x1 em cima da Argentina de Aymar, Riquelme, Sorín e Tevez. Em matéria do jornal Olé, o articulista Marcelo Sotille sentenciou, lançando luz sobre o quesito 'alegria' dos brasileiros como um diferencial dentro de campo:

“(…)Bailando con sus mejores sonrisas, cantando ante ojos extraños como un grupo que se divierte sin que los rivales le sa­quen la pelota. Porque son así, son profesionales del juego bonito, Y en la cancha suelen mostrar los dientes... (Olé, 30 de junho de 2005)”.

Voltando ao 'Caso Grafite' Helal compartilha a repercussão na imprensa esportiva da Argentina sobre a prisão do zagueiro do Quilmes, destacando os populares Olé e Clarín:

"As matérias sobre o “caso de racismo” do jogador Desábato chegaram às primeiras páginas dos jornais argentinos e o tom era de indignação pelo exagero da punição. Havia fotos do jogador alge­mado e manchetes sob o título “Vergonha” (Clarín, 15 de março) e “Inferno no Brasil” (Olé, 15 de março)".

Helal percebeu que o uso frequente do termo ‘macaquito’ empregado pela imprensa e atletas portenhos, embora cristalize estereótipos e traga uma aditivo de preconceito, tem uma conotação puramente provocativa, ciosos de que isso incomoda os brasileños. O macaquito seria o equivalente do maricón, contrapartida usada pelos jogadores brasileiros para irritar os argentinos. Assim como um brasileiro ao provocar o adversário chamando o de maricón, alusão a vaidade dos argentinos com suas cabeleiras vastas atadas a rabos-de-cavalo ou arcos, ou tiaras, não acredita que de fato, o oponente é gay, e só o faz por provocação, o mesmo se dá com as mofas dos argentinos.

Voltando à fala de Felipão sobre ‘Caso Grafite’, o treinador coloca à plateia de jornalistas a pergunta ‘querem debater racismo no futebol? Quantos craques e bons jogadores negros já tivemos no Brasil? Muitos ou poucos?’

 Felipão mesmo responde e encaixa outra pergunta (inquietante e incômoda pergunta) ‘tivemos muitos e agora respondam, quantos técnicos negros estão à frente de algum grande time brasileiro?


REFERÊNCIAS:

HELAL, Ronaldo, Como eles nos vêem - futebol brasileiro e imprensa argentina, Revista Contemporânea, UERJ,2005,disponível: http://www.contemporanea.uerj.br/pdf/ed_04/contemporanea_n04_07_RonaldoHelal.pdf